Opinião                     Publicada na Revista da FAPEMIG-No. 18 de março a maio de 2004

A divulgação científica no Brasil

Ildeu de Castro Moreira*

A ciência e a tecnologia permeiam, hoje, a vida de todos nós. A resolução dos graves problemas sociais e econômicos que afetam nosso país tem nelas um pré-requisito indispensável. Para a cidadania, é importante que cada um tenha a oportunidade de adquirir conhecimento básico sobre a ciência e seu funcionamento que lhe possibilite entender o seu entorno, ampliar suas oportunidades no mercado de trabalho e atuar politicamente com conhecimento de causa.

A divulgação científica tem um papel importante neste contexto. Na formação permanente de cada pessoa, no aumento da qualificação geral científico-tecnológica e na criação de uma cultura científica no âmbito maior da sociedade. Tem, ainda, um papel complementar ao ensino formal de ciências, reconhecidamente deficiente em nosso país. Muitos países do mundo têm estabelecido, nas últimas décadas, políticas e programas nacionais e locais voltados para a popularização da C&T. O Brasil não dispõe ainda de uma política ampla com esse objetivo, embora já tenham surgido iniciativas localizadas ou programas específicos para áreas determinadas.

As últimas duas décadas têm sido um período rico em experiências de divulgação científica, embora o país ainda esteja longe de ter uma atividade abrangente e de qualidade nesse domínio. Como exemplos, temos as reuniões anuais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Projeto Ciência Hoje, a criação de dezenas de centros e museus de ciência, a presença mais constante da ciência na mídia, entre outros. Apesar desse esforço acentuado, estamos ainda longe de uma divulgação científica de qualidade que atinja amplos setores da população.

Um número muito pequeno de brasileiros, menos de 1% da população, visita algum centro ou museu de ciência a cada ano. Na mídia impressa e televisiva, via de regra, a ciência é apresentada como um empreendimento espetacular, no qual as descobertas científicas são episódicas e realizadas por indivíduos particularmente dotados. As aplicações da C&T ganham ênfase, mas o processo de sua produção, seu contexto, suas limitações e incertezas são usualmente ignorados, assim como as interfaces entre ciência e cultura. A participação organizada de cientistas, professores e alunos universitários nessas atividades, embora crescente, ainda é rara, desorganizada e com pouca valorização institucional. Do ponto de vista da formação de profissionais na área de comunicação em ciência, as iniciativas são ainda incipientes.

O estabelecimento recente de um departamento no Ministério da Ciência e Tecnologia voltado para a popularização e a difusão da C&T, ligado à Secretaria de C&T para a Inclusão Social, é um passo que, se consolidado, poderá contribuir para o estabelecimento de ações de popularização que estejam nacionalmente articuladas. Alguns objetivos gerais para orientar uma política nacional começam a ser desenhados: aumentar a apreciação coletiva do valor e da importância da C&T; estimular a capacidade criativa e de inovação, em especial dos jovens; proporcionar uma maior presença da C&T brasileira nos meios de comunicação; contribuir para a melhoria e atualização do ensino das ciências; estimular o uso e a difusão da C&T em ações de inclusão social; estimular que as atividades de divulgação científica incorporem também as ciências sociais; promover uma maior interação entre ciência, cultura e arte, valorizando os aspectos culturais e humanísticos da ciência; estimular a participação popular no debate sobre os impactos resultantes da C&T.

Em função dessas linhas gerais, diversas ações estão sendo propostas e começam a ser implementadas. Elas serão objeto de discussão constante com entidades e instituições científicas e tecnológicas e da área da divulgação científica. Entre elas, destacamos a criação de um Fórum Nacional de Popularização de C&T com o objetivo de articular os setores dos governos e da sociedade civil para a formulação e implementação de políticas e ações na área; o estabelecimento da Semana Nacional de C&T, que ocorrerá pela primeira vez no Brasil, em caráter experimental, de 18 a 24 de outubro, com o objetivo de criar um mecanismo para mobilizar a população em torno dos temas e da importância da ciência. As instituições de ensino e pesquisa, centros e museus, escolas, sociedades científicas e outras entidades realizarão atividades de divulgação voltadas para o público escolar e para o público geral, como eventos em locais públicos, oficinas, ‘dias de portas abertas’, festivais e feiras de ciência.

Outra proposta são ações integradas com o MEC, que colaborem para a melhoria, desde o nível fundamental, do ensino das ciências; um programa de apoio a centros e museus de ciência com várias vertentes, além do fortalecimento dos atuais, com itinerância nacional das exposições (Programa Ciência Móvel); o desenvolvimento, em parceria com TVs e rádios estatais e comunitárias, de programas de divulgação científica; a criação de um portal dedicado à popularização da C&T; ação junto às universidades e agências de fomento para valorização das atividades de divulgação científica; estímulo à criação de cursos de formação/qualificação para comunicadores da ciência e jornalistas científicos; apoio a programas estaduais de popularização da ciência.

Ampliar e melhorar a qualidade da divulgação científica no país, para que esta contribua para um maior interesse pela ciência e para a criação de uma cultura científica, é uma tarefa grande que só ocorrerá se for transformada em um processo coletivo amplo, que envolva sociedades científicas, instituições de pesquisa, universidades, governo, cientistas, comunicadores, educadores e estudantes.

* Diretor de Difusão e Popularização da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia